Brinquedos de ciência dentro da sala de aula

Brinquedos de ciência dentro da sala de aula

Como será que os brinquedos eram usados para ensinar ciências? Para responder a essa pergunta, a pesquisadora da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FEUSP), Ermelinda Pataca, iniciou um processo de investigação de brincadeiras e brinquedos usados no ensino de ciências, utilizando o acervo existente dentro do Museu de Educação e Brinquedo da FEUSP (MEB/FEUSP).

O projeto mais recente, que pesquisa o brinquedo chamado poliopticon, se propõe em fazer uma história social do objeto. O poliopticon é um brinquedo famoso da década de 1980 que se constituía basicamente em um jogo de peças contendo, tubos e lentes, que serviam para a confecção de diversos instrumentos óticos, tais como, binóculos, lupas, lunetas etc.

Dentro desse contexto, foram escolhidos dois exemplares do poliopticon, mas produzidos por empresas diferentes. Um produzido pela Fundação Brasileira para o Desenvolvimento de Ensino de Ciências (Funbec) e outro produzido por uma empresa do setor privado.

Como explica a professora, o brinquedo produzido pela empresa do setor privado teve uma circulação maior. Entretanto, mesmo produzindo o mesmo objeto, as duas fabricantes possuíam embalagens e propostas diferentes. “O brinquedo passa a ter significado a partir do momento que se é dado uma finalidade para ele, e o que queremos saber é justamente o que difere um brinquedo de um material didático”, questiona Pataca.

De acordo com o bolsista da iniciação científica, Vinicius Bezerra, a escolha do poliopticon como objeto em particular partiu de dois fatores: primeiramente, entre os anos de 2014 e 2015, foi realizado uma primeira iniciação científica que tinha como objetivo investigar todo o acervo de jogos e brinquedos do Museu da Educação e do Brinquedo (MEB), separando e sistematizando – aqueles que na compreensão do projeto – poderiam ser utilizados como instrumentos de apoio aos professores em formação no ensino de ciências.

Dentre esses brinquedos, que foram catalogados e organizados, estão alguns bastante famosos, como por exemplo, bonecos desmontáveis que mostram partes do corpo humano, kits de laboratórios, lousas mágicas e livros com textos sobre assuntos científicos. O poliopticon, inclusive se constituía como um desses brinquedos em potencial.

“Desta forma, optamos por continuar a pesquisa por mais um ano. Nossa intenção era analisar estes jogos e brinquedos separados tendo em vista a construção de possíveis atividades destinadas ao ensino de ciências e que pudessem ser aplicadas pelos professores em formação em projetos desenvolvidos no âmbito da FEUSP como, por exemplo, o Clube de Matemática, Ciências e Geografia, que permite aos alunos do curso de Pedagogia elaborar e trabalhar atividades diversificadas destas áreas do conhecimento com os alunos”.

Ao se estudar o Poliopticon, o bolsista percebeu que ele pode ser usado dentro da própria sala de aula, pois é composto de um kit com diversas peças. Ao se encaixarem entre si, culminam em diferentes instrumentos óticos, tais como, telescópio, caleidoscópio, luneta de galileu, entre outros.

“Nesse sentido, além da possiblidade de trabalho de conceitos ligados à área da física, pode-se também oportunizar a construção detalhada dos instrumentos pelos alunos, pois normalmente quando vão aos laboratórios, por exemplo, os instrumentos já se encontram disponíveis para serem utilizados, e por meio do Poliopticon é possível monta-los e desmontá-los verificando o passo-a-passo desse processo, além de constatarem a maneira como funcionam e as probabilidades que oferecem”.

Brinquedos e professores

O bolsista salienta ainda que é importante que a ciência não seja abordada de uma forma linear, como um conhecimento pronto e acabado e que pode ser aperfeiçoada apenas pelos cientistas. Para isso, é necessário quebrar esses paradigma e inserir os estudantes como sujeitos ativos que desenvolvam suas aprendizagens e construam seus conhecimentos científicos experimentando e participando da ciência.

“Isso quer dizer que elaborar possibilidades dos alunos poderem experimentar e testar suas hipóteses acerca dos conceitos científicos torna o aprendizado muito mais significativo para eles. Nesse sentido, os brinquedos se tornam um instrumento de apoio muito eficaz, pois permite as crianças e jovens um contato mais prático com a ciência”, explica Bezerra.

O MEB

O MEB é um espaço da Faculdade de Educação que mantém viva a memória de brinquedos do início do século XX até os dias atuais. Brinquedos tais como bonecas e acessórios para casinha das décadas de 1940 e 1950, jogos, bonequinhos e videogame da década de 1980 etc., além de fotografias das décadas de 1920 e 1940, livros e materiais pedagógicos, possibilitam aos visitantes conhecer e/ou relembrar os protagonistas da infância de diferentes momentos históricos, culturas e classes sociais, além de reviver a emoção da memória do próprio brincar.

Segundo Pataca, tudo isso graças a professora Tizuko Kishimoto, especialista da área de infância. “Durante seu doutorado, a professora trabalhou com a história dos jardins de infância de São Paulo das décadas de 1920 em diante. Ela realizava entrevistas com uma ex-professora do Instituto Caetano de Campos, que fotografava todas as brincadeiras das crianças daquela época. E como já estava com idade avançada, doou todo esse arquivo, nascendo daí o museu da educação e do brinquedo”.